Quando John Lennon disse, em entrevista a um tabloide britânico, que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo naquele março de 1966, nem imaginava a polêmica que suscitaria. Cinco meses depois ele acabou pedindo desculpas pela comparação, mas o Vaticano só o perdoou oficialmente em novembro de 2008.

A frase, porém, foi eternizada e até hoje é lembrada como exemplo do impacto dos Beatles sobre a cultura dos anos 1960 e 1970 e de toda a história da música nas décadas seguintes. Mais do que isso, a máxima de Lennon pode ser usada em uma reflexão mais ampla sobre fama, celebridades e o grau de abrangência de suas ações.

Trazendo a ideia para o contexto brasileiro, dificilmente poderíamos dizer que há aqui alguém que seja mais conhecido do que Jesus Cristo – estamos falando do país mais católico do mundo, onde em qualquer canto é possível ouvir a frase “se Deus quiser” ou “graças a Deus”. Não podemos negar, no entanto, que o culto aos famosos tem um papel importantíssimo na vida social dos brasileiros.

Citado por Alex Primo (@Alexprimo), David Marshall explica que as celebridades como as entendemos hoje surgiram no apogeu de Hollywood, quando atores e atrizes de cinema passaram a transcender as telas e criar uma “aura”. A isso somou-se a emergência do close-up, que fez a relação entre audiência e personagens tornar-se mais “íntima”, o que provocaria o início do fascínio pelos artistas.1

No livro “Celebridade”2, Chris Rojek define seu objeto de estudo a partir de uma figura que recebe um status glamouroso ou notório dentro da esfera pública (ROJEK, 2008: 11). Aqui, vamos limitar ainda mais nosso campo de observação e eliminar a categoria de famosos ‘notórios’ – indicação de “reconhecimento público desfavorável” imbuída de “colorido, prestígio instantâneo”, podendo até “ser investida de heroísmo por ousar liberar as emoções bloqueadas de agressão e sexualidade que a sociedade civilizada procura reprimir” (ROJEK, 2008: 17).

Não falaremos, portanto, de figuras como Massimo Tartaglia (que recentemente atirou uma estatueta de ferro no nariz do premier italiano, Silvio Berlusconi, ferindo-lhe o nariz e a boca) ou, mais extremadamente, Suzanne von Richthofen (paulistana condenada a 39 anos de prisão pelo assassinato dos próprios pais em 2002).

Para usar de uma definição bastante pragmática, as celebridades aqui analisadas são as que aparecem em revistas de fofocas. A parte do mercado editorial brasileiro dedicada ao culto às pessoas famosas, aliás, é um exemplo do quanto a população se interessa pela vida do galã da novela ou da ex-participante do reality show Big Brother Brasil.

As duas maiores publicações voltadas ao gênero no país são a Caras, que coloca na rua mensalmente 280 mil exemplares, e a Contigo, com tiragem de 215 mil ediões. Em suas páginas é possível ler matérias como a que fala de “Oscar Magrini com muita disposição” ou ler Priscila Fantin afirmando ser “filha de Iemanjá”. As enormes fotos que tomam conta de 80% das revistas são sempre perfeitas – envolvem, nitidamente, grandes produções, lindas locações e os melhores sorrisos que alguém que vive da própria imagem é capaz de dar.

Veículos como Caras e Contigo constituem, por excelência, o canal ideal para mediar o culto aos famosos, que é “impressionantemente uma cultura de relações superficiais” na qual as celebridades desenvolvem “escudos de envolvimento” para se relacionar com os leitores/espectadores/plateia e dissimular o eu verdadeiro do rosto público (ROJEK, 2008: 51). Essa dissimulação, que visa elevar uma pessoa de carne e osso ao status de desejo de consumo de toda uma sociedade, é um processo quase industrial.

“Hoje nenhuma celebridade adquire reconhecimento público sem a ajuda de intermediários culturais como diretores de cena da sua presença aos olhos do público. ‘Intermediários culturais’ é o termo coletivo para agentes, publicitários, pessoal de marketing, promoters, fotógrafos, fitness trainers, figurinistas, especialistas em cosméticos e assistentes pessoais. A tarefa deles é planejar uma apresentação em público de personalidades célebres que resultará num encanto permanente para uma plateia de fãs.” (ROJEK, 2008: 12 E 13)

Não há portanto, melhor exemplo do grau de fabricação dos astros e estrelas do que a comparação de suas atuações nas revistas de famosos – com dezenas de pessoas envolvidas na produção de fotos perfeitas, textos calculadamente vazios, frases prontas, situações forçadas e a eterna perpetuação da superficialidade como qualidade – em contraste com seu comportamento sincero, ordinário e decepcionadamente trivial, ou até mesmo vulgar, no Twitter.


A definição mais comum para o Twitter é de site de microblogging, já que permite que seus usuários (twitters) postem frases com até 140 caracteres (tweets) – contendo informações pessoais sobre o dia-a-dia, indicações de sites, links ou vídeos interessantes, críticas a política, sociedade, economia e organização urbana.

No livro Redes sociais na internet3, Raquel Recuero (@raquelrecuero) explica que o Twitter foi criado em 2006 por Jack Dorsey (@jack), Biz Stone (@biz) e Evan Williams (@ev) dentro de um projeto da empresa Odeo. Os textos a serem publicados são escritos a partir da pergunta “O que você está fazendo?” e a estrutura do sistema é baseada em seguidores (followers) e a escolha de pessoas a seguir. Também se pode mandar mensagens em privado para outros usuários e reencaminhar para seus followers um post publicado por outrem. É possível ainda definir se as intervenções serão públicas ou não.

Na edição de 28 de dezembro do caderno Link, do jornal O Estado de São Paulo, Pedro Doria diz em sua coluna que o Twitter é “a coisa mais importante a surgir na internet desde o Google”. Segundo ele, a grande inovação dessa rede social é representar “um enorme conjunto de pessoas em que se confia ao alcance de um clique”, todas elas selecionando e difundindo informação.

A característica do Twitter como mídia evoluída para troca de dados ajuda a explicar a atração exercida por perfis como o do treinador do Corinthians, Mano Menezes (@manomenezes). Com mais de 1,3 milhão de seguidores – o segundo maior no ranking brasileiro –, o técnico usa a ferramenta para passar informações em primeira mão sobre os treinamentos do time e até mesmo novas contratações.

O Twitter trabalha a favor de Mano Menezes, que, por sua condição profissional, costuma estar à mercê do noticiário esportivo. Diferentemente das celebridades da Caras, ele não encara essa mídia como mais um palanque de auto-afirmação, mas como uma plataforma de divulgação livre da mediação exercida pelo jornalismo.

O perfil do ex-músico do Los Hermanos Marcelo Camelo (@m_camelo) também prima pela difusão de informação aos fãs. Na própria descrição, a página deixa claro que os posts são atualizados pela equipe de produção do artista e que Camelo não usa o Twitter. Nas mensagens, datas de shows, vídeos com performances do músico e respostas a perguntas dos seguidores.

Ambos twitteiros, Mano Menezes e Marcelo Camelo, limitam sua experiência nessa rede social ao diálogo longínquo, sem usar a interação – uma das opções mais atrativas para novos membros. Cada um à sua maneira (Menezes, ao evitar responder a questionamentos de seguidores e Camelo, passando adiante a postagem de novos tweets), estão no Twitter da mesma forma que as celebridades globais estão na Caras: à distância e sem enfrentar riscos.

“O relacionamento entre celebridades e fãs é tipicamente mediado pela representação. (…) A mídia constitui o melhor canal de contato entre fãs e celebridades. Palco, tela, audiotransmissão e cultura impressa são os principais mecanismos que expressam os vários idiomas da cultura e da celebridade. Cada um pressupõe distância entre a celebridade e o público.” (ROJEK, 2008: 51)

Aderir ao Twitter sem aderir completamente a seus serviços não é exclusividade brasileira. O presidente norte-americano, Barack Obama (@barackobama), que inovou ao utilizar intensamente e de forma bem sucedida as redes sociais durante sua campanha eleitoral, confessou, depois de tomar posse no início de janeiro de 2009, que nunca havia usado o site. Na época do anúncio, Obama tinha o perfil com mais seguidores do mundo; hoje ele é o quarto, com 3 milhões de followers.


Talvez por sua dinâmica intrinsecamente pessoal o Twitter tenha vingado como um local onde é fácil encontrar celebridades falando por sua própria boca, interagindo com seguidores e fãs, compartilhando links e brigando com outros usuários – atitudes que não costumam lhes ser atribuídas em outras mídias. Mesmo em blogs, por exemplo, sempre há a mediação de algum profissional pago para resguardar o eu público do cantor/ator/modelo/ex-BBB.

Quando isso não acontece, há grandes chances de que a celebridade se descubra frente a tentativas de ridicularização ou provocações dirigidas pelo usuário comum. Sem os “intermediários culturais” e o respaldo dos demais internautas, os erros e gafes podem desmascarar a pessoa trivial, com qualidades e defeitos, que se esconde atrás das maquiagens e produções.

O confronto com famosos na vida real é passível de causar três resultados: a confirmação, por meio da qual o rosto público da celebridade acaba sendo reconquistado e confirmado pela interação direta; normalização, com a articulação e o reconhecimento de traços comuns que fazem a celebridade ficar, momentaneamente, mais parecida com as outras pessoas – a constatação de que elas são humanas pode até mesmo intensificar a estima pública; e, por último, a dissonância cognitiva, onde o encontro contrapõe-se radicalmente à imagem do famoso na mídia de massa, expondo o rosto público à condenação crítica como uma fachada ou suporte calculados. (ROJEK, 2008: 19 e 20)

A apresentadora infantil Xuxa (@xuxameneghel) começou a twittar em agosto de 2009. Subitamente, seus posts passaram a ser digitados em caixa alta – o que, na linguagem da web, costuma significar ênfase ou xingamento. Xuxa respondeu a seus seguidores: “EU NÃO ESTOU GRITANDO, NEM QUERO SER MAL EDUCADA, GALERA. SEMPRE QUE ESCREVO NO COMPUTADOR, ESCREVO ASSIM. É O MEU JEITINHO!”. Depois, ao ser criticada por causa dos erros de português nas digitações da filha Sasha, a apresentadora decidiu largar o Twitter: “fui vcs não merecem falar comigo nem com meu anjo” e, por último, “Tô aqui de volta pra deixar claro que não quero e não vou processar o twitter. Sou contra a censura, mas sou a favor do respeito. Fui”.

O ator global Bruno Gagliasso (@bgagliasso) cometeu uma gafe devido à falta de experiência no mundo virtual que virou notícia entre sites de celebridades. Iniciante no Twitter e sem pleno domínio do funcionamento da ferramenta, Bruno escreveu um post no qual chamava um amigo para sair, passando-lhe seu telefone. (Ele obviamente não sabia que qualquer usuário do site teria acesso à informação uma vez que a mensagem fosse publicada.) Com seu celular caindo no conhecimento público, o ator foi obrigado a cancelar o número.

Na época, Bruno fazia o papel do esquizofrênico Tarso, na novela Caminho das Índias. Com uma atuação muito elogiada e que posteriormente lhe conferiu vários prêmios, ele manteve até mesmo um blog sobre saúde mental enquanto durou a produção televisiva. Uma das marcas registradas do personagem era sua ideia fixa de que alguém havia implantado um chip em seu corpo.

Depois do caso do celular no Twitter, Bruno fez piada em cima de seu erro e em alusão à fixação de Tarso. “Fiz m…tao me seguindo no cel…vou tirar o chipp, o chipp, chipp, chipp……” e “SOCOOOOORRO!!!o chipp não sai…chipp não sai…chipp sai…sai…sai!!! sai chipp!!!!”.

A atriz, modelo, ex-participante de reality show e capa de revistas masculinas Nana Gouvea (@NanaGouvea) é outra com um histórico de constrangimentos no Twitter. Ela deixa claro quais são suas intenções profissionais com textos como “Antes q eu esqueça!Preciso mais 1vez d ajuda d vcs!Tá rolando 1 enquete sobre melhores decotes d 2009 no www.ego.com.br Pease!Votem em mim!” ou fala, metalinguisticamente, do próprio excesso de sinceridade: “Levei 1 bronca ferrada d minha empresária(Anna Cristina Pires d SP) p/ causa d Twitter,ela disse q eu me esponho demais falando aqui, q tal”.

Como resume Chris Rojek, essas intervenções representam momentos para os quais “a celebridade não pôde se preparar e polir um rosto público sustentável para uma ocasião em que existe um script definido” (ROJEK, 2008: 51) – vide os erros crassos de português nos textos de Nana Gouvea.

A atriz norte-americana Miley Cyrus, intérprete do fenômeno milionário infanto-juvenil Hannah Montana, decidiu abandonar seu Twitter, revoltada com o fato de que qualquer palavra dita por ela na rede acabava virando notícia. De acordo com o Link do Estadão, um suposto fã ameaçou cozinhar um gato para fazer a atriz voltar a usar a ferramenta.


A abordagem pós-estruturalista sobre o conceito de celebridade indica que os famosos são modulados e modificados pela mídia e pela própria assimiliação do público ao qual se dirigem. Dessa forma, “articula-se uma visão dispersa de poder na qual a celebridade é examinada como um campo em desenvolvimento de representação intertextual onde o significado é montado de várias maneiras. A variação deriva de diferentes construções e inflexões investidas na celebridade pelos participantes no campo, incluindo agentes, funcionários da imprensa, colunistas de fofocas, produtores e fãs”. (ROJEK, 2008: 49)

Essa noção de imagem em constante aprimoramento explica o sucesso de uns e o fracasso de outros no Twitter. Vence quem souber se ajustar melhor à nova mídia e usar a espontaneidade e o carisma característicos das celebridades em benefício próprio.

Para explorar os tipos de capital social apropriados pelos brasileiros e sua influência sobre as relações dentro deste sistema, Raquel Recuero e Gabriela Zago4 fizeram uma pesquisa baseada na observação participante do Twitter e em três conjuntos de dados envolvendo 903 respostas a um questionário, 622 tweets e a análise de uma rede ego-centrada. Uma das conclusões do estudo foi de que o estabelecimento de valores no sistema depende de vários itens, sendo dois deles o acesso à informação e o uso da ferramenta para a conversação.

Em dezembro, na terceira edição do Open Web Awards (premiação voltada a inovações e realizações na tecnologia e mídias sociais), a cantora Ivete Sangalo (@ivetesangalo) conquistou três trofeus, nas categorias Usuária do Ano no Twitter, Melhor Celebridade e Artista da Música para seguir. Além de dialogar com fãs, ela costuma usar a rede social para passar informações em primeira mão, como, por exemplo, a recente confirmação de que abrirá os shows da norte-americana Beyoncé no Brasil. Ivete Sangalo é a quinta pessoa mais seguida do país, com 540 mil followers.

É inegável que uma celebridade sempre sairá na frente de um anônimo, mesmo que este seja uma pessoa conhecida e querida por inúmeras pessoas, em uma eventual disputa pelo maior número de followers. Recuero e Zago explicam que a popularidade é um dos itens que influencia na reputação de um usuário no Twitter. “Enquanto a reputação é um valor relacionado às impressões construídas pelos demais atores, essas impressões estão diretamente relacionadas à expressão pessoal.”

Os campeões globais de seguidores são todos celebridades mundiais: o ator hollywoodiano Ashton Kutcher (4,3 milhões); a cantora Britney Spears (4,1 milhões), a comediante Ellen DeGeneres (4 milhões), o presidente norte-americano, Barack Obama (3 milhões), a apresentadora Oprah Winfrey (2,9 milhões) e o cantor John Mayer (2,8 milhões). Vale nota o fato de todos os seis perfis mais seguidos do Twitter serem provenientes dos Estados Unidos, onde o próprio sistema surgiu.

Durante sua pesquisa, Recuero e Zago descobriram que 54% das pessoas entrevistadas por elas afirmaram manter um controle de quantos followers tinham. “Quanto maior o número de seguidores que alguém possui, maior a sua visibilidade na rede (mais pessoas recebem seus tweets). Quanto mais visível, maiores as chances de receber novas conexões e tornar-se mais popular”.

“Além disso, percebeu-se durante a observação, que muitos atores engajam-se em estratégias para aumentar sua visibilidade e popularidade na rede, como acrescentar um grande número de pessoas à sua conta, na expectativa de também ser adicionado e depois removê-las.”

O campeão do ranking brasileiro de twitters mais acompanhados é o apresentador de televisão Luciano Huck (@huckluciano), com mais de 1,6 milhões de seguidores. Huck é o exemplo perfeito da busca incessante por followers. Logo que chegou à rede, ele causou polêmica ao tentar atrair usuários oferecendo brindes em troca das adesões. Criticado por grande parte dos internautas, a atitude não impediu que Huck fosse o primeiro brasileiro a aparecer na lista dos 100 mais seguidos do sistema. Talvez essa seja a maior prova de que nem o Twitter está livre da influência das celebridades.


1. PRIMO, Alex. “Existem celebridades da e na Blogosfera? Reputação e renome em blogs”. Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação 2009. Disponível em <http://www.compos.org.br/data/trabalhos_arquivo_coXJHx58Jwpgo.pdf>. Acesso em: 09 de janeiro de 2010.

2. ROJEK, Chris. Celebridade. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

3. RECUERO, Raquel. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.

4. RECUERO, Raquel; ZAGO, Gabriela. “Em busca das ‘redes que importam’: redes sociais e capital social no Twitter”. Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação 2009. Disponível em <http://www.compos.org.br/data/biblioteca_1016.pdf>. Acesso em: 09 de janeiro de 2010.




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