PARTE I: “Gente, eu amo todos vocês!”

10jan10

Quando John Lennon disse, em entrevista a um tabloide britânico, que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo naquele março de 1966, nem imaginava a polêmica que suscitaria. Cinco meses depois ele acabou pedindo desculpas pela comparação, mas o Vaticano só o perdoou oficialmente em novembro de 2008.

A frase, porém, foi eternizada e até hoje é lembrada como exemplo do impacto dos Beatles sobre a cultura dos anos 1960 e 1970 e de toda a história da música nas décadas seguintes. Mais do que isso, a máxima de Lennon pode ser usada em uma reflexão mais ampla sobre fama, celebridades e o grau de abrangência de suas ações.

Trazendo a ideia para o contexto brasileiro, dificilmente poderíamos dizer que há aqui alguém que seja mais conhecido do que Jesus Cristo – estamos falando do país mais católico do mundo, onde em qualquer canto é possível ouvir a frase “se Deus quiser” ou “graças a Deus”. Não podemos negar, no entanto, que o culto aos famosos tem um papel importantíssimo na vida social dos brasileiros.

Citado por Alex Primo (@Alexprimo), David Marshall explica que as celebridades como as entendemos hoje surgiram no apogeu de Hollywood, quando atores e atrizes de cinema passaram a transcender as telas e criar uma “aura”. A isso somou-se a emergência do close-up, que fez a relação entre audiência e personagens tornar-se mais “íntima”, o que provocaria o início do fascínio pelos artistas.1

No livro “Celebridade”2, Chris Rojek define seu objeto de estudo a partir de uma figura que recebe um status glamouroso ou notório dentro da esfera pública (ROJEK, 2008: 11). Aqui, vamos limitar ainda mais nosso campo de observação e eliminar a categoria de famosos ‘notórios’ – indicação de “reconhecimento público desfavorável” imbuída de “colorido, prestígio instantâneo”, podendo até “ser investida de heroísmo por ousar liberar as emoções bloqueadas de agressão e sexualidade que a sociedade civilizada procura reprimir” (ROJEK, 2008: 17).

Não falaremos, portanto, de figuras como Massimo Tartaglia (que recentemente atirou uma estatueta de ferro no nariz do premier italiano, Silvio Berlusconi, ferindo-lhe o nariz e a boca) ou, mais extremadamente, Suzanne von Richthofen (paulistana condenada a 39 anos de prisão pelo assassinato dos próprios pais em 2002).

Para usar de uma definição bastante pragmática, as celebridades aqui analisadas são as que aparecem em revistas de fofocas. A parte do mercado editorial brasileiro dedicada ao culto às pessoas famosas, aliás, é um exemplo do quanto a população se interessa pela vida do galã da novela ou da ex-participante do reality show Big Brother Brasil.

As duas maiores publicações voltadas ao gênero no país são a Caras, que coloca na rua mensalmente 280 mil exemplares, e a Contigo, com tiragem de 215 mil ediões. Em suas páginas é possível ler matérias como a que fala de “Oscar Magrini com muita disposição” ou ler Priscila Fantin afirmando ser “filha de Iemanjá”. As enormes fotos que tomam conta de 80% das revistas são sempre perfeitas – envolvem, nitidamente, grandes produções, lindas locações e os melhores sorrisos que alguém que vive da própria imagem é capaz de dar.

Veículos como Caras e Contigo constituem, por excelência, o canal ideal para mediar o culto aos famosos, que é “impressionantemente uma cultura de relações superficiais” na qual as celebridades desenvolvem “escudos de envolvimento” para se relacionar com os leitores/espectadores/plateia e dissimular o eu verdadeiro do rosto público (ROJEK, 2008: 51). Essa dissimulação, que visa elevar uma pessoa de carne e osso ao status de desejo de consumo de toda uma sociedade, é um processo quase industrial.

“Hoje nenhuma celebridade adquire reconhecimento público sem a ajuda de intermediários culturais como diretores de cena da sua presença aos olhos do público. ‘Intermediários culturais’ é o termo coletivo para agentes, publicitários, pessoal de marketing, promoters, fotógrafos, fitness trainers, figurinistas, especialistas em cosméticos e assistentes pessoais. A tarefa deles é planejar uma apresentação em público de personalidades célebres que resultará num encanto permanente para uma plateia de fãs.” (ROJEK, 2008: 12 E 13)

Não há portanto, melhor exemplo do grau de fabricação dos astros e estrelas do que a comparação de suas atuações nas revistas de famosos – com dezenas de pessoas envolvidas na produção de fotos perfeitas, textos calculadamente vazios, frases prontas, situações forçadas e a eterna perpetuação da superficialidade como qualidade – em contraste com seu comportamento sincero, ordinário e decepcionadamente trivial, ou até mesmo vulgar, no Twitter.



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